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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Costa do Esqueleto revela naufrágios, ossadas e diamantes







Revista Época

seg, 18/01/10
por Haroldo Castro |


O governo da Namíbia está no processo de consolidar várias reservas já existentes situadas no litoral e, com isso, criar uma das maiores áreas protegidas do planeta. O futuro Parque Nacional Namibe-Costa do Esqueleto terá 107.540 km2 (maior que o Estado de Pernambuco), abrangerá toda a costa do país e será a sexta maior reserva terrestre do mundo.

O nome Costa do Esqueleto, apesar de dar medo, excita nossa curiosidade e, mais uma vez, trocamos de rota. Em vez de escolher a estrada asfaltada que corta o país de sul a norte, resolvemos subir pelo litoral e visitar um dos parques já existentes (denominado, obviamente, Costa do Esqueleto).

Falésias vermelhas descem abruptamente até as praias de pedras roliças. A água é fria: a corrente marítima vem da Antártida.

A região é completamente desabitada e existem apenas dois “povoados” dentro do parque. Torra Bay é um acampamento para pescadores, aberto durante os dois meses de verão. Terrace Bay é uma pousada construída pela NWR (Resorts de Vida Selvagem da Namíbia) para servir de base para aqueles que desejam conhecer a costa e, consequentemente, que precisam pernoitar em algum lugar. A pousada aproveitou o lugar de uma mina de diamante abandonada e tem uma vista interminável de dunas, ondas e falésias.

Contando com um litoral dos mais piscosos, os namibianos possuem uma paixão pela pesca esportiva. Um capitalino pode facilmente rodar 600 km de estrada de chão (ou melhor, de sal batido) para passar algumas semanas pescando com amigos. Em Torra Bay, contei mais de 100 barracas (algumas gigantes, com sala, cozinha e quartos), todas munidas de geradores.

A pesca esportiva é liberada durante os dois meses de verão no parque da Costa do Esqueleto, mas os pescadores devem seguir normas de tamanho e de quantidade.

Davinus, gerente do bar da pousada NWR, aproveita seus momentos de folga para ir pescar. A bordo de uma 4×4 e munido de algumas varas e diferentes iscas, ele passa horas olhando o mar. “Acabo trazendo peixe fresco para a pousada. Não precisa ser bom pescador para encher uma bacia”, afirma. Davinus e os demais pescadores possuem um grande inimigo, a Foca do Cabo (foto) (Arctocephalus pusillus). Quando centenas de focas encontram um cardume de peixes, não há espaço para nenhum pescador. “Melhor encontrar outro lugar alguns quilômetros mais longe. Cada foca come diariamente seu próprio peso em peixes”, diz Davinus.

Uma boa razão da região ter sido batizada com o nome de Esqueleto é a quantidade encontrada de ossos de baleia e animais terrestres, assim como de destroços de naufrágios. Quando vemos uma pedra pintada com as palavras “ship wreck”, não hesitamos e saímos da estrada rumo ao oceano. Subimos no topo de um morro e, lá embaixo, está uma carcaça de uma pequena embarcação. Resolvemos continuar explorando a pé, câmeras em punho. Entendemos um pouco mais os desafios dos navegantes quando uma onda, bem maior do que as anteriores, nos pega de surpresa, molhando nossa roupa e até mesmo uma máquina fotográfica.



Na Costa do Esqueleto existem dezenas de escombros de barcos naufragados. Todos são um testemunho da violência do Atlântico Sul.

Para uma bela vista do entardecer, subimos ao topo de uma duna na traseira da Toyota da NWR. Preferimos deixar nossa Nandi aos pés da montanha de areia de 80 metros. Afinal, com tanta coisa dentro, ela pesa quase três toneladas. Regressamos famintos ao simpático restaurante de Terrace Bay. Suas três paredes brancas são um convite a que viajantes de todo o mundo escrevam assinaturas e recados. Nós deixamos a marca de “Luzes da África” e o símbolo de nossa divindade protetora Omega Megog.

Depois de devorar uma Pasta Primavera, conversamos com Peter. Ele está em Terrace Bay há um mês, implantando uma pequena mina de diamantes. “Depois de três anos, consegui a concessão, a poucos quilômetros daqui. A praia antiga, a 50 metros da água, está cheia de diamantes, de alta qualidade. Aqui posso encontrar 38 quilates em cada 100 toneladas de areia”, afirma o explorador. Ele pensa iniciar a produção ainda nesse ano, logo que encontrar um parceiro que traga um milhão de euros. “É um investimento garantido. Tem retorno nos primeiros três meses. Você não tem um milhão de euros?” O convite é sério e ele me dá seu celular e seu email. “Se algum amigo seu quiser virar milionário, entre em contato comigo”, afirma Peter. A Costa do Esqueleto ainda possui muitos tesouros em suas areias.

Nosso companheiro Davinus aventura-se nas dunas de Terrace Bay. A Costa do Esqueleto possui belas paisagens, mas também muitos diamantes escondidos.

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