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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Lelé, esse é o cara


lelé, esse é o cara
fevereiro 19, 2010


http://rosenbaumdesign.wordpress.com/


Discípulo e amigo de Oscar Niemeyer, Lelé é arquiteto carioca, de 78 anos, provavelmente mais conhecido pelos seus colegas do que pelo público. O que já é uma boa razão para ler as Páginas Negras da revista Trip desse mês, onde, entre outras coisas, ele conta do começo de Brasília que ajudou a construir, comenta sobre Brasília de hoje, sobre o Lula e política, música e feminismo. Seguem suas declarações sobre sustentabilidade e imagens da matéria, boa dica de leitura para o final de semana. (Pra ler a matéria completa, clique). “Esse é o Lelé”.


“…Arquiteto discreto, (…) ao longo dos anos, criou projetos ultrafuncionais, imprimindo sua marca não pelos desenhos espetaculares, mas pela integração do ser humano com o meio ambiente, pelo uso econômico dos materiais e pela inventividade para criar soluções ergonômicas e sustentáveis. Entre seus projetos mais famosos estão os prédios da rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, a construção dos Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), ao lado do educador Darcy Ribeiro, e dos Ciacs (Centros Integrados de Atendimento à Criança), do governo Collor.

(…)

Uma questão que sempre foi associada à sua obra é a da sustentabilidade. Mas esse conceito virou certo modismo… Isso o incomoda?
Eu detesto, detesto… Mas está dando lucro ser ecologista. E, na verdade, o discurso da sustentabilidade disseminado por aí não está sendo praticado. Porque a gente precisa economizar os recursos naturais e utilizar o que a natureza nos fornece de mais barato. Sempre que eu falo sobre esse tema, uso a imagem da abelha. As abelhas lidam com uma coisa absolutamente sofisticada e escassa, que é o mel. A abelha retira o pólen das flores, faz um sacrifício enorme para transformar isso em mel. E o incrível é que a forma escolhida para fazer a colmeia, em hexágono, é a mais econômica que se tem. Seria mais fácil fazer uma casa redondinha, mas intuitivamente ela tem o cuidado de fazer hexagonal, que é a forma de juntar um casulo com o outro economizando o máximo de material. Então, quer dizer, o que o ser humano tem que fazer daqui pra frente construindo seus casulos, suas casas, suas cidades é usar a abelha como exemplo…

Porque hoje se fala em uma maior conscientização e mobilização social…
Quanto mais se fala, mais se afasta. As pessoas falam em solidariedade e cada vez são mais individualistas. Então, o discurso é o oposto do que se pratica. Todo mundo sabe que o automóvel é uma coisa terrível em nossas cidades. E o que se faz? As fábricas produzem cada vez mais. Ao contrário de se criar restrições à produção, o discurso enganoso de que são as fábricas de automóveis que dão emprego é disseminado no mundo inteiro e assim eles recebem subsídios, proteções para fabricar cada vez mais automóveis. Então a direção é o oposto do que se quer, e isso me dá um susto.

Qual seria a saída para essa superpopulação de automóveis?
A grande alternativa seria investir em transporte coletivo, mas os investimentos são muito altos e a pressão que existe em torno do mercado automobilístico, da venda de automóveis, pelo sistema do neoliberalismo, da globalização, é muito grande, é internacional… A gente sabe que o discurso é falso, mas tem glamour. E, na medida em que tem glamour, a população está vendo televisão e comprando automóvel todos os dias. Como reverter esse processo? Isso aí é um mistério, é uma mágica que eu não sei como fazer.

Esse modelo de grandes metrópoles é irreversível?
Olha… Eu gostaria que houvesse uma retomada das pequenas cidades, que é a escala que o ser humano consegue conviver melhor entre si. Mas o próprio shopping é uma resposta de que esse modelo de megalópoles é irreversível. Enquanto houver a proliferação de shopping centers e os centros urbanos continuarem sendo centros de consumo desenfreado, a tendência é aumentar sempre. É claro que as grandes cidades têm algumas vantagens. São Paulo, por exemplo, é um centro cultural fenomenal. Nova York é uma maravilha, você chega lá e pode ir à Broadway, cada dia ver uma peça diferente, tem sempre um concerto. Mas eu acho que isso não é o suficiente, eu acho que as grandes aglomerações urbanas só servem para destruir mais rapidamente o planeta. Esse consumo desenfreado é brutal.

Qual a sua perspectiva para os próximos 50 anos? Você acredita nas previsões climáticas catastróficas?
Não sei. De vez em quando participo de reuniões científicas, e tenho ouvido opiniões tão diferentes acerca disso que a gente não sabe até que ponto a mídia está manipulando… Eu não sei se as previsões estão tão catastróficas quanto estão sendo colocadas lá. Agora uma coisa me parece clara, a de que o planeta e suas espécies estão sendo destruídos e o ser humano não tem esse direito. Me parece uma perda inestimável. O ser humano é deste planeta. Não pense ele que vai morar na Lua, no planeta Marte, pois não vai não! Ele tem que morar aqui, porque nasceu aqui, foi fabricado aqui. Essa migração é praticamente impossível do ponto de vista biológico.

O que acha da captação de energias renováveis, como a solar ou a eólica?
Me parece que realmente a energia eólica seria a forma mais econômica. No último hospital da rede Sarah que a gente fez, lá no Rio de Janeiro, a gente usou placas de absorção solar para aquecimento da água. Agora eu acho que essas iniciativas não podem ser individualizadas, porque elas requerem investimentos muito grandes. Então acho que as grandes demandas pelas quais passa a humanidade agora, em questões de energia, requerem que essas ações sejam institucionalizadas através dos governos. Têm que ser coletivas, não pode ser individual. O que pode ser feito do ponto de vista individual é a economia. Na medida em que a gente restringe, por exemplo, o uso de ar-condicionado, a mangueira para lavar o quintal…

Não adianta captar água da chuva pra dar descarga?
Não adianta, isso que me angustia…

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