My Dear friends

This site not work anymore .I have a new site and you can go there visit me. I dont go put more post here anymore ... If you like this blog go there .. I will be there for you ... Olá meus queridos amigos ... agora tenho um novo blog Este site nao funcionará mais , tive alguns problemas. Agora tenho um novo endereco de blog. Nao irei mais colocar post neste blog .. Todas as atualizacoes e novidades estarao no outro endereco .. Acessem... estarei lá pra vcssss Se vcs gostaram desse blog irao amar o outro .. mais atualizado e lindo ... Vamos láaaa .... visitem-me lá .. Beijinhos Lili

Tank for everything !!!

melldesofia.blogspot.com

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O irã sem véu


Entrevista / Entrevista do mês - 04/02/2010
Revista Marie Claire

Por Marcelo Bernardes

Ela deixou seu país aos 19 anos para estudar artes plásticas na Califórnia. Dois anos depois, com o estouro da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini, foi impedida de voltar para casa. Sem poder receber visitas e ajuda financeira da família, Shirin Neshat fez da revolta seu ganha-pão. Transformou-se numa das artistas plásticas feministas mais incensadas do planeta e, aos 52 anos, levou o Leão de Prata, segundo prêmio mais importante do Festival de Veneza, pela direção de Mulheres sem homens, filme que marca sua estreia no cinema

Em seu ateliê no chelsea, o distrito das galerias de arte de Nova York, Shirin Neshat acerta os detalhes de sua próxima exposição na cidade. O trabalho, uma coletânea de fotos e textos em farsi e inglês, foi inspirado nos cantos entoados nos templos de Luang Prabang, no Laos, onde ela esteve em 2005 e 2008. O mergulho da artista no universo laosiano, entretanto, foi bruscamente interrompido no final do ano passado com a conquista do Leão de Prata, o segundo mais importante prêmio do Festival de Veneza, pelo filme Women without men (Mulheres sem homens). O longa, poderosa adaptação do livro homônimo de Shahrnoush Parsipur publicado em 1990 no Irã e ainda sem tradução para o português, marca a estreia de Shirin na direção cinematográfica e conta a história de quatro mulheres oprimidas pelo Irã de 1953. Na ocasião, o país assistia a um golpe de estado com o apoio da CIA e à ascensão do xá Reza Pahlevi, que por 37 anos prendeu, torturou e matou supostos opositores da monarquia. Para se ter ideia da brutalidade do xá, em 1977, a Anistia Internacional conferiu ao Irã o título de país de menor respeito aos direitos humanos.

No mesmo período, Shirin, a caçula dos cinco filhos de um médico de Qazvin, cidade a duas horas de Teerã, mudou-se para os Estados Unidos para estudar Artes Plásticas na Universidade de Berkeley, Califórnia. “Caí em depressão quando cheguei e pedi que meus pais me levassem de volta, mas eles insistiam que aquilo seria importante para a minha formação.” O que eles não sabiam é que, em 1979, o Irã viveria uma revolução sanguinária que os impediria de visitar Shirin por mais de uma década. “Ainda os culpo por isso”, diz ela, sem esconder as benesses da revolta. “Graças à ansiedade que isso gerou, virei artista. Se tivesse voltado, teria, no máximo, me casado com um garoto.”

Trinta anos depois, Shirin se tornou — ao lado da cineasta Samira Makhmalbaf, de A maçã (1999) e Às cinco da tarde (2003), e da escritora Marjane Satrapi, de Persépolis (2007) — uma das vozes femininas de maior expressão na luta contra os abusos do fundamentalismo islâmico. A seguir, ela fala da greve de fome que fez, ano passado, em protesto às eleições “fraudulentas” no Irã, das sequelas de uma educação repressora, do islamismo e da vida ao lado do marido, o cineasta Shoja Azari, e do filho, Cyrus, de 19 anos.

Marie Claire Você tinha 19 anos quando deixou o Irã, no final dos anos 70, para estudar na Califórnia. Como foi essa transição?
Shirin Neshat A decisão de me mandar para lá foi dos meus pais. Antes da Revolução Islâmica, mandar os filhos estudar no Ocidente era comum. Só que eu tinha uma imagem dos Estados Unidos e, quando cheguei, a realidade era outra.

MC Que imagem você fazia?
SN Hollywood [risos]! Cinema! Sempre sonhei em vir para cá e, quando cheguei, caí em depressão. Depois de um ano e meio, meus pais vieram me visitar. Pedi que me levassem de volta para o Irã. Estava devastada, queria o calor da família, mas eles insistiam: “Seja paciente. Esse é um universo rico e diferente, nunca vai haver nada assim no Irã”. Um ano após a visita deles, veio a revolução, o que fez com que eu ficasse 11 anos sem vê-los. Ainda os culpo por essa ideia pré-concebida da educação superior. Por causa disso, perdi minha família. Só voltei a vê-los em 1990, depois da morte do aiatolá Khomeini, quando o Irã já não era mais o mesmo e as mulheres passaram a ser obrigadas a usar o xador [antes da revolução, o uso do véu era opcional]. Foi o período mais difícil da minha vida. Era desestabilizador ser uma jovem sem família em um país estrangeiro. Tive de aprender a tomar decisões sozinha. Isso me marcou. Me fez ser uma pessoa ansiosa. Meu marido diz que me tornei artista graças a essa ansiedade. Acredito nisso. Se tivesse voltado para casa, no máximo, teria me casado com algum garoto.

MC O que mais deprimia?
SN A existência de uma sociedade tão individualista. No Irã, os laços familiares são intensos. Minha família era calorosa e, de repente, fiquei sozinha, tendo que tomar conta de mim. Aqui é tudo “eu, eu, eu”. Na última década, por causa do trabalho, felizmente, passei a ser acompanhada por uma grande comunidade iraniana. Estar entre iguais ajuda a sobreviver. Sempre me senti alienada pelos valores capitalistas americanos. Até hoje, quando passo em frente a um shopping center, meu corpo treme. Odeio isso. Me sinto distante dessa realidade de consumo sem personalidade. O caos do Terceiro Mundo é mais excitante [risos]!

Leia mais no site de ÉPOCA: Como entender a maior rebelião popular iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979

MC A que trabalhos você teve que se submeter para se manter financeiramente nos EUA?
SN Em 1983, vim para Nova York com meu diploma de artes debaixo do braço e nenhum centavo para viver. Aceitei um trabalho de recepcionista num salão de beleza e fui rapidamente demitida porque não conseguia esconder minha frustração com aquelas mulheres que faziam até três sessões de escova por semana. Eu morava no East Village, vivia mergulhada no estilo de vida boêmio e ir para o mundo elegante da Madison Avenue, era uma coisa nojenta [risos]. Depois, consegui um trabalho numa empresa têxtil, onde desenhava estampas sem muito ânimo, e numa galeria chamada Storefront for Art and Architecture, que ficava no SoHo e pertencia ao meu primeiro marido [o arquiteto coreano Kyong Park]. Não dava para ganhar muito dinheiro, mas preferi ser pobre a abrir mão da minha vida boêmia. Meu primeiro trabalho como artista só aconteceu mesmo em 1993, quando fiz a série fotográfica Mulheres de Alá [coletânea de imagens que teve repercussão internacional ao revelar que, por baixo do xador, as muçulmanas carregam de caligrafias sagradas estampadas na pele até fuzis e metralhadoras nas mãos].

MC Você namorou americanos?

SN Namorei americano, branco, negro e asiático [risos]. Meu ex-marido, pai do meu filho, é coreano. Acho que a diferença cultural atrapalhou nossa relação. Passei anos sozinha nos EUA e deveria estar adaptada. Mas nunca me adaptei. Minha diferença de valores com a dos homens com quem estive envolvida acabou influenciando. Quanto mais eu ficava imersa artística e socialmente na comunidade iraniana, mais me desconectava do meu primeiro marido. Hoje, com meu atual marido [o cineasta Shoja Azari], que é iraniano, não tenho problemas. Estar com alguém que divide as mesmas raízes é muito bom.

MC Você se lembra de quando deu seu primeiro beijo?

SN Meu primeiro beijo em território americano foi na Califórnia, com um rapaz negro por quem me apaixonei perdidamente. Também saí com um garoto iraniano que vivia dizendo: “A gente tem que transar, tem que transar”. Eu negava e ele ameaçava me abandonar. Um dia eu disse: “Então, vá”. E ele foi [risos]. Até hoje essa minha dificuldade com a sexualidade me atormenta. Com a nova geração de iranianas, é outra história. A minha tentou ser moderna, mas não conseguiu abandonar a tradição. A de hoje é mais aberta, mais ativa sexualmente.

MC Em casa, quando menina, que diálogo sobre sexualidade você podia ter com seus pais?
"Por um bom tempo achei que o Sexo fosse uma coisa errada, Suja"

SN Quando tive minha primeira menstruação, não sabia o que estava acontecendo. Fiquei assustada [pensando ter uma hemorragia]. Minha mãe não falava sobre isso comigo e, ao me ver chorando, sugeriu que eu falasse com minha irmã, porque ela, como mãe, não deveria tocar nesse assunto. No Irã, a sexualidade não entra na pauta de discussões familiares. É um tabu. Por um bom tempo carreguei esse sentimento ruim dentro de mim, como se sexo fosse uma coisa suja. Quando estive no Rio, em 2002, parei para admirar o corpo das brasileiras na praia e fiquei intrigada com o tamanho dos biquínis. Tudo parecia exposto demais [risos]. Mas pensei: “Também posso ser assim!”. Então, comprei um fio dental numa loja e fui à praia com ele. Só não tive coragem de tirar a saída de banho. Por mais que eu tentasse, não dava. A exposição sexual é uma coisa que, para nós, iranianas, nunca foi bem resolvida. Sempre digo para minhas amigas que, se quiserem comparar dois países totalmente opostos, fiquem com o Brasil e o Irã [risos].

MC Onde está esse biquíni?

SN Nunca mais usei. Depois do Rio, fui para a Bahia, mas não voltei a usar. Lá, lembro de mulheres com corpos mais rechonchudos que o das cariocas mas que, mesmo assim, se mostravam superconfortáveis em seus biquínis. É como se elas dissessem: “Posso não ser perfeita, mas me sinto linda”. Isso fez sentido para mim, embora eu não seja tão desprendida. Como artista, acho que meu corpo é só uma extensão de meu trabalho.

MC Seu primeiro longa, Mulheres sem homens, venceu o Leão de Prata no Festival de Veneza. Como recebeu a notícia?

SN Fiquei surpresa. Trabalhei seis anos para fazer o filme e tinha dúvidas se ele seria bem recebido. Quando cheguei a Veneza, me achei totalmente irrelevante ao festival. Todos ali eram maiores que eu. Pensei: “Fique feliz só por participar da competição”. Então, quando ganhei, entrei em choque. O presidente do júri disse que a fusão da história do livro com uma direção mais experimental ajudou na vitória. Depois de tanto trabalho, talvez eu tenha mesmo feito a coisa certa. Nos anos 90, apresentei a exposição Mulheres de Alá na Dinamarca, na Grécia, na Suécia e na China, e não fui aceita de imediato. Os críticos rechaçaram. Disseram que eu fazia aquilo só para chocar e, embora não fosse isso, me acostumei com o fato de meu trabalho gerar reações negativas. O prêmio em Veneza me deu legitimidade.

MC O feminismo é a tônica de seu trabalho. Ele foi um fator determinante em sua criação?

SN Abordo a temática feminina porque sou mulher, não feminista. Mulheres sempre foram heroínas para mim. Ainda mais as iranianas, que, geração após geração, tiveram que lidar com problemas em todos os campos: político, social, cultural, religioso... E sobreviveram! Adoro a ideia de que, quando você está contra a parede, sempre encontra um novo tipo de força em si mesma. Torna-se um soldado. Vejo isso em mim. Gosto dessa parte de mim que luta para sobreviver. Mas nunca me senti confortável em ser taxada de feminista, principalmente na visão que o mundo ocidental faz das feministas. Não quero me equiparar aos homens. O que mais gostava em meu pai é que ele tratava filhos e filhas do mesmo jeito. Somos três irmãs e dois irmãos, e ele queria que tivéssemos a mesma educação, tinha o mesmo sonho para todos nós.

MC O filme tem como pano de fundo o golpe de 1953, quando você não era nascida. Quanto sabia sobre essa época? Discutia política em casa?

SN Para ser honesta, não era familiarizada com a política daquele período. Durante a pesquisa para o filme, tive a estranha sensação de que meus pais nunca haviam discutido aquilo com a gente. Com o golpe, um tabu foi criado, pois o xá endureceu contra os comunistas. Não era uma coisa que as pessoas queriam comentar nem em suas casas. A Savak, polícia secreta do Irã, estava sempre de olho, e todo mundo tinha medo de explicitar qualquer afinidade com o partido. Minha família se recusou a falar sobre o golpe comigo até durante a produção do filme.

MC Por que você escolheu justamente o livro Mulheres sem homens para transformar em filme?

SN Tenho fascínio por escritoras iranianas. E gosto muito da maneira como a Shahrnoush Parsipur, a autora do livro, escreve sobre a realidade política, cultural e religiosa do Irã nos anos 50, sem sublimar o lado feminino. Na época, todos no país buscavam a mesma coisa: liberdade.

MC Não é irônico que os EUA tenham ajudado no golpe de 1953 e condenem o regime de Ahmadinejad (presidente eleito em 2009)?
"A sociedade iraniana era refinada. Hoje, somos os bárbaros por trás da revoluçao"

SN Os Estados Unidos são inimigos do Irã desde 1953. Por mais que eu odeie o governo iraniano e o considere irresponsável e ilegal, acho irritante a imagem que o Irã ganhou no Ocidente depois dos atentados de 11 de setembro. É como se a gente fosse um povo bárbaro, que nunca experimentou a democracia. Quando, na verdade, éramos uma sociedade democrática, que foi derrubada pela CIA nos anos 50. A sociedade iraniana era refinada, sofisticada, e hoje, no mundo, somos os bárbaros por trás da revolução.
"Fazer greve de fome foi fácil. difícil seria ter apetite (com tanta revolta)"

MC Em julho de 2009, você fez greve de fome para protestar contra as eleições no Irã e mostrar que os problemas do país não são regionais, mas da comunidade internacional...

SN A ditadura no Irã se alastra como uma doença pelo Oriente Médio. Se continuarmos a apoiar um governo que prende e tortura ativistas, disseminaremos isso pelo mundo. Hoje é o Irã, amanhã será o Egito e, depois, o Chile. Temos que apoiar os jovens que lutam pelos direitos humanos, por princípios básicos de sobrevivência e pela democracia.

MC Foi difícil fazer greve de fome?

SN A ideia nasceu de um grupo de amigos que, assim como eu, sabem que a apuração rápida dos votos e a larga vantagem de Ahmadinejad indicam fraude nas eleições e que isso não é um problema do Irã, mas de toda as Nações Unidas. Éramos ao todo 20 pessoas, e ficamos três dias diante do prédio da ONU, em Manhattan, fazendo piquete. A revolta era tanta que não foi difícil ficar sem comer. Ao contrário. Difícil seria ter apetite.

MC Recentemente, Ahmadinejad foi recebido em visita ao Brasil pelo presidente Lula. O que achou disso?

SN Entendo que a Venezuela receba o presidente do Irã, mas o Brasil? Francamente! Um país que endossa o atual governo iraniano assume uma grande parcela de culpa. É inacreditável o que Ahmadinejad vem fazendo contra seu próprio povo. Não conheço nenhum outro país em que os direitos humanos sejam violados de uma maneira tão extrema. Um governante que tortura, mata e intimida inocentes para ficar no poder é inaceitável. Ahmadinejad é o boneco dos extremistas islâmicos. Ele funciona bem como propaganda para os países muçulmanos fanáticos, pois exacerba o sentimento anti-Israel.

MC Qual é sua relação com o islamismo? Pratica a religião?

SN Na minha família, eu era a pessoa mais atraída pelo Islã. Rezava todos os dias porque preciso de algo maior do que eu para me apegar, segurar. Até hoje faço minhas orações. Mas acredito em Deus de uma maneira privada, não de forma organizada coletivamente. Também faço distinção entre o islamismo político e espiritual. Infelizmente, o Islã ganhou uma reputação ruim por causa de governos extremistas. Respeito os muçulmanos, não quem usa a religião para justificar atrocidades.

MC Você usa o xador?

SN Não. É uma peça exótica, repleta de significados e, embora eu respeite isso, não uso o véu.

MC Seu marido, Shoja Azari, codirigiu o filme com você. Trabalhar junto não é ruim para o casamento?

SN Conheci Shoja em 1998, quando fiz um vídeo chamado Turbulent, no qual ele cantava. Toda vez que eu tinha uma ideia, ele era a primeira pessoa para quem eu contava. Me acompanhou nas filmagens, no trabalho de edição. Foi a pessoa mais importante na tarefa de transformar o livro em filme, respeitando meu estilo. No set, meu trabalho teria sido impossível sem ele, pois o conhecimento dele de estrutura de roteiro era muito maior que o meu. No começo foi doloroso. Colaboração entre casais é interessante, mas não é fácil. Você tem que ser firme e dizer não para ideias que desaprova. Isso foi uma coisa que aprendi na marra.

MC Hoje, fazendo uma balanço entre a rígida educação que recebeu no Irã e a influência do life style dos EUA na sua vida, você se sente mais próxima das mulheres iranianas ou das americanas?

SN Nem todas as americanas são iguais, então não quero generalizar. Mas, hoje, quando me comparo com não iranianas, vejo que ainda sou bem tradicional, principalmente em relação aos meus valores pessoais. Nos Estados Unidos existe um forte desapego da família, dos valores morais. A explosão da revolução feminista nos anos 70 trouxe para as americanas muitas mudanças comportamentais, atitudes mais liberais. Isso é estranho para mim. Ao mesmo tempo, como não vivi de perto a Revolução Islâmica, quando voltei para o Irã depois de uma década longe, estranhei a resignação de algumas muçulmanas com a obrigatoriedade do xador. Diria que não sou nem uma coisa nem outra, me encaixo entre esses dois modelos. Sou uma ocidental-oriental.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Minha lista de blogs