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sexta-feira, 5 de março de 2010

EU AMO CATHERINE DENEUVE




Esse texto poderia ter outros dois títulos: UM AMOR DE PROFESSORA. Ou. O DIA EM QUE QUASE TIREI 10.Quando tinha uns 15 anos, gostava de recortar jornais, até mesmo quando via algum caído na rua, que falasse principalmente de música, poesia, arte em geral, pegava, saía lendo ou punha no bolso e lia mais tarde. Certa vez vi no banco da praça uma folha inteira com rosto enorme de Catherine Deneuve e fotos menores dela, uma atriz francesa, linda, premiadíssima e que eu já era fã, por achá-la sensual. Assisti e assisto ainda muitos filmes românticos. Como “O céu pode esperar”, “Uma janela para o céu”, “Nunca te vi, sempre te amei”. Aí vão dizer: “Que cara velho!”. Não gente, adoro cinema atual. Sou só um pouco misturado. O poeta tem que ser, olhar pra todos os lados. O cinema não tinha toda essa plástica de hoje e os filmes quase todos eram românticos. Todo rapazinho já desejou uma grande atriz e eu não era diferente. No fim da tarde lembrei de algo. Tinha um trabalho para entregar e eu havia esquecido. E agora? O trabalho substituiria uma das provas. Também não me desesperei. “O que não tem remédio, remediado está. Tenho que estudar dobrado pra próxima prova”. A professora não ia adiar, já o tinha feito por duas vezes. Deixei pra lá. Apesar de a aula ser de manhã, estava eu, sem sono vendo tv, alta madrugada. Ia começar outro filme. Quando começou a passar os nomes, que vi Catherine Deneuve me empolguei. Corri, esquentei um leitinho e sentei no sofá vendo minha deusa em “A sereia do Mississipi”. De repente me lembrei da boa coincidência. Eu estava com um recorte de jornal no bolso falando só sobre ela. Abri, esperei o intervalo e era uma pequena biografia da vida da atriz, contando de sua carreira, filmes, prêmios, onde nasceu, com quem casara. Ainda pensei. “Quem é o felizardo que está beijando essa boca?”. Terminado o filme, dei um grito no corredor. “Obaaaaa! Meu trabalho está feito” . Alguém gritou num dos quartos de casa. “Para de gritar, menino. Tá doido? Vai dormir”. Tinha esquecido que era madrugada, mas é que fiquei tão feliz com a ideia que não me segurei. O tema do trabalho era livre. Eu tinha no bolso uma bela reportagem sobre Catherine, inclusive com fotos. Era só usar a imaginação e bolar um texto. E estava inebriado pelo filme o que me ajudaria muito. Escrevi, rasguei, escrevi de novo. Fiz um monte de lixo no chão. Até finalmente passar para as folhas definitivas. Total de quatro. Haja café. Terminei com o dia nascendo, galo cantando, sol saindo, quase dormindo na mesinha. Só que não tinha como fazer capa bonita. Só com as folhas ficaria feio. “Mas as meninas da escola têm tudo. Canetinha, pincel, etc. Chego mais cedo e vou pedindo”. Sempre as mulheres me socorrendo. Tomei banho rápido, minha mãe estranhou eu nem tomar café. Não podia perder tempo. Uma menina chamada Alba me ajudou. “Você não tem jeito, né Carlos? Mas eu tenho tudo aqui”. Sentada no meio fio, perguntou o título e fez a capa pra mim. ”DIVAS DO CINEMA- CATHERINE DENEUVE”. Na primeira chamada de sinal já entramos, tínhamos que ir à secretaria para furar as folhas. Os grampos pra prender, ela tinha, sempre tinha. A professora já entrou pegando os trabalhos. Olhou o meu e comentou. “Caprichado, hein Carlos? Você não era assim, está melhorando”. Eu respondia sempre na esportiva. “Que é isso ‘fessora. Não magoe meu pobre coração”. Riu. “Quero ver se tem conteúdo”. Respondi. “Ai dentro tem uma pérola ‘fessora”. Ainda pisquei pra Alba do outro lado como agradecimento. Quando a aula terminou, fui último a sair como sempre. A professora na porta. Fomos andando juntos pelo corredor. “Li seu trabalho todo no recreio. O título me chamou atenção e quis ler, porque gosto muito de filmes e especialmente da Catherine. Seu texto está ótimo. Juntou biografia, com poesia, romantismo, perfeito. Não sabia que você gostava da Catherine”. Respondi. “Fessora. Eu amo Catherine Deneuve”. Ela se impressionou com a forma com que falei. “Do jeito que você falou acho que até ela se renderia a você agora. Foi intenso como no texto”. Perguntei. Se fui tão bom assim, então mereço um 10, né?”. “Não”, ela disse. “Vou dar 9. Porque você exagerou na parte que falou da sensualidade dela. Tinha que ser mais moderado, você foi quase erótico. Parecia que tinha um garoto desejando uma atriz.”. Reclamei rindo. “E tinha mesmo. E eu não sei usar meios termos nesses assuntos .Tudo bem, 9 está bom. Valeu a noite de sono”. Ela fechou o diálogo. “Mas confesso que gostei da sua...”, pensou, pensou, “... cri-a-ti-vi-da-de”. Fiquei pensando, olhando-a se afastar. “Será que a ‘fessora está me dando bola?”. Era mais velha, talvez uns trinta anos, mas era bonita, tinha seu charme. Não era Catherine Deneuve, mas tinha a vantagem de ser palpável. Bota palpável nisso. No final do corredor, saindo no portão, ainda olhou pra trás. Só acordei quando um amigo, bateu no meu ombro. “Simbora, Carlos. Dormindo em pé?”. Depois não teve nada. Impressão de momento, eu acho.

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